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Sumaúma sul-americana cruzou Atlântico e colonizou a África

2007-08-06 - 10:06:39


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Ascom

 

A sumaúma (Ceiba pentandra), provavelmente o maior ser vivo da Amazônia, cruzou o Oceano Atlântico e colonizou a África. Isso aconteceu por volta dos últimos poucos milhões de anos. Esta é a conclusão de uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), por meio do Laboratório de Genética e Biologia Evolutiva de Plantas (LabGen), em colaboração com o Smithsonian (Panamá). Os resultados foram publicados na revista cientifica americana Molecular Ecology.

            O trabalho aponta que o processo de dispersão se deu, provavelmente, por meio da combinação de grandes vendavais e de correntes marítimas que levaram sementes para o outro lado do Atlântico. Há também a possibilidade de sementes ou estruturas vegetativas terem atravessado o Atlântico aderidas a grandes troncos flutuantes. 

            Os pesquisadores responsáveis pelo projeto no INPA, Maristerra Lemes e Rogério Gribel, ambos do LabGen, explicam que foram feitas  coletas de indivíduos de sumaúma  em diversos pontos da Amazônia Brasileira, no leste a oeste dos Andes Ecuatoriano, na América Central (Panamá, Costa Rica, México), Índias Ocidentais (Porto Rico), e em três países da África (Camarões, Gabão e Gana). O material biológico coletado foi analisado no LabGen e no Laboratório do Instituto Smithsonian no Panamá.

            Os trabalhos iniciaram-se em 2000 e a pesquisa foi executada em colaboração com dois pesquisadores do Instituto Smithsonian: Christopher Dick e Eldredge Bermingham.

            De acordo com o pesquisador Rogério Gribel (INPA), esse é um dos primeiros estudos que comprova, com base em análises de seqüências do DNA, que propágulos  de árvores da floresta tropical podem cruzar milhares de quilômetros de oceano. “Embora tais eventos de dispersão transoceânica sejam raros, o mesmo pode ocorrer eventualmente quando se tem um horizonte de tempo de vários milhões de anos”, explica.

            Ele argumenta que eventos raros como esses são difíceis de serem detectados, mas muitos contribuíram para a formação das florestas tropicais do Globo: “a própria floresta amazônica, na sua composição atual, é provavelmente formada por vários taxas invasores, vindos de outros continentes, que colonizaram a região ao longo de dezenas de milhões de anos”, afirma.   

            Durante as pesquisas, a idéia dos cientistas foi de verificar a veracidade de três cenários levantados pela equipe do projeto que pudessem explicar a chegada da sumaúma na África. Foi analisado o DNA do cloroplasto (organela responsável por carregar a clorofila, existente no interior das células verdes) e do núcleo celular dos exemplares coletados.  No primeiro cenário, a espécie se dispersou sobre ambos os continentes antes deles terem se separado há 90-95 milhões de anos. Esta é chamada hipótese da “Vicariância de Gondwana".

            Já o segundo cenário: hipótese da “Dispersão Boreotropical", sugere que durante fases de aquecimento na história da Terra, as plantas tropicais se espalharam por altas latitudes pelo sul da Europa até chegarem na América do Norte e colonizarem a América Tropical. Este possível corredor tropical deixou de existir há pelo menos 35 milhões de anos.

            A terceira hipótese: “Dispersão Transoceânica", se referia à possibilidade de colonização mais recente do continente africano, depois da América do Sul e da África estarem totalmente separados. A análise das seqüências de DNA em laboratório e das taxas de mutação das regiões do genoma investigadas mostrou que a divergência genética entre as duas populações é pequena, “compatível com uma separação recente das populações, provavelmente nos últimos 3-5 milhões de anos”, destaca Maristerra Lemes.  Uma quarta hipótese, a de que a sumaúma foi introduzida na África pelo homem durante o comércio de escravos, também não foi comprovada.

            Segundo os dois pesquisadores do INPA, apesar da extrema distância e da dificuldade encontrada pela planta para se fixar ao novo ambiente, a hipótese de dispersão a longa distancia explica melhor como Ceiba pentandra se espalhou pela América do Sul e, mais recentemente, pela África. Outro aspecto interessante da pesquisa foi mostrar que as populações do Oeste e Leste dos Andes também são pouco diferenciadas, sugerindo que existiu fluxo gênico entre os dois lados após o surgimento daquela cadeia de montanhas.

Sistemas de adaptação e colonização – Os pesquisadores ressaltam que estudos anteriores sobre a historia natural e a ecologia reprodutiva desta espécie ajudam a compreender os dados genéticos agora encontrados. “A sumaúma tem vários predicados que a fazem uma excelente colonizadora. As sementes têm duplo sistema de dispersão: podem ser dispersas pelo vento, pois têm uma paina de fibras que as envolvem, e pela água, em função de um tecido similar a uma cortiça que fica aderida à semente, funcionando como uma bóia”, informam os cientistas.   

            Estudos anteriores indicam que a sumaúma, ao contrário da maioria das árvores neotropicais, é autocompatível, ou seja, pode produzir frutos e sementes quando suas flores são polinizadas com o pólen do mesmo indivíduo.  Isto representa que mesmo uma árvore isolada poderia dar origem a uma nova população. Além disso, as flores da sumaúma são adaptadas a serem polinizadores, por exemplo, os grandes morcegos (como Phyllostomus hastatus) na Amazônia.

            Na África, a sumaúma encontrou por lá morcegos evolutivamente bastante diferentes (as raposas voadoras), mas que visitam suas flores com comportamento similar aos dos grandes morcegos da Amazônia. Como as raposas voadoras têm grande capacidade de deslocamento, eles poderiam promover o cruzamento de indivíduos localizados a vários quilômetros uns dos outros, o que também facilitaria a colonização de novos territórios.

Conservação da sumaúma – Ambos os pesquisadores, Lemes e Gribel, expressam preocupações quanto a conservação desta valiosa espécie na Amazônia, que vem desaparecendo das várzeas em função da exploração para produção de compensados.

            “A sumaúma é uma árvore gigante, que pode chegar a altura de um prédio de 16 andares. É importante no universo mítico de vários povos indígenas. Suas sementes servem de alimento para os peixes. Produz substancias com propriedades antiinflamatórias, analgésicas e é utilizada em pesquisas contra o câncer.  Sua paina tem propriedades óleo-absorventes, servindo para recuperar áreas sujeitas a derramamentos de óleo, em ambiente de água doce ou salgada” argumentam os pesquisadores. Contudo, infelizmente as árvores estão desaparecendo da paisagem das várzeas amazônicas, sem que medidas adequadas para sua conservação e manejo sejam adotadas.