A SUBUTILIZAÇÃO DA PUPUNHA: LIÇÕES PARA P&D EM PALMEIRAS AMAZÔNICAS?
Charles R. Clement1; John C. Weber2;
David Cole3; Johannes van Leeuwen4
1Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA, Cx. Postal 478, 69011-970 Manaus, AM, Brasil cclement@inpa.gov.br
22224 NW 11th Street, Corvallis, Oregon, 97330 USA
3School of Forest Resources and Conservation , University of Florida, Gainesville, FL 32611-0410, USA
4INPA, Cx. Postal 478, 69011-970 Manaus, AM, Brasil
In: Jardim, M.A.G.; Bastos, M.N.C.; Santos, J.U.M. (Eds.). Desafios da Botânica Brasileira no Novo Milênio: Inventário, Sistematização e Conservação da Diversidade Vegetal. 54º Congresso Nacional de Botânica / 3ª Reunião de Botânicos da Amazônia. Sociedade Brasileira de Botânica, Belém, PA, 2003. pp. 212-214.
A pupunheira (Bactris gasipaes Kunth, Palmae) foi domesticada pelos primeiros povos da Amazônia por seus frutos abundantes, ricos em energia e b-caroteno, e em muitas partes da Amazônica ocidental tornou-se um importante componente de segurança alimentar na economia de subsistência. Um esforço de pesquisa e desenvolvimento (P&D) começou em 1975 no INPA, Manaus, AM, responsável pelo desenvolvimento inicial do agronegócio de palmito de pupunha no Brasil, a partir de meados da década de 1980. No entanto, a primeira prioridade deste esforço sempre foi o fruto, devido a sua importância pré-colombiana e a percepção de seu potencial no mercado moderno, mas este agronegócio nunca se desenvolveu no Amazonas, ao contrário do que ocorreu em Costa Rica e Colômbia, onde os mercados para o fruto fresco e processado expandiram-se pelo menos um pouco nas últimas décadas. Por que em Manaus e na Amazônia brasileira foi diferente? Quem foi responsável para esta falta de expansão: a pupunha, o esforço de P&D, ou o ambiente político-sócio-econômico?
1. A pupunha não é um fruto típico. Sua composição é muito mais similar a da mandioca (Manihot esculenta Crantz), do milho verde (Zea mays L.) ou da batata doce (Ipomoea batatas Poir.) (Tabela 1). Conforme o grau de domesticação da pupunha aumenta, a quantidade de amido e outros carboidratos simples é mais similar à quantidade de mandioca, de milho ou de batata doce. A quantidade de água é um pouco menor em pupunha que em mandioca, milho ou batata doce, devido a maior presença de fibra e gordura na pupunha.
Tabela 1. Comparação da composição química média* de pupunha, mandioca, milho, batata doce e um conjunto de 21 frutas suculentas.
| Espécie | água | proteína | gordura | carbo. | fibra | energia |
| g/100g | kcal | |||||
| Pupunha | 45,0 | 3,5 | 27,0 | 19,8 | 3,8 | 351 |
| raça Juruá | 54,4 | 3,1 | 13,8 | 19,6 | 8,4 | 249 |
| raça Solimões | 42,7 | 4,1 | 12,0 | 31,2 | 9,3 | 286 |
| raça Putumayo | 52,6 | 1,9 | 3,5 | 38,0 | 3,2 | 204 |
| Mandioca | 65,2 | 1,0 | 0,4 | 32,8 | 1,0 | 132 |
| Milho verde | 63,5 | 4,1 | 1,3 | 30,3 | 1,0 | 129 |
| Batata doce | 67,2 | 0,9 | 0,2 | 29,6 | 1,1 | 128 |
| Frutas suculentas | 82,8 | 0,9 | 0,8 | 11,9 | 2,9 | 63 |
* Pesos frescos; a diferênça entre a soma das médias e 100 é devido ao conteúdo de cinzas.
Além da composição química, a pupunha precisa ser cozida antes de ser consumida, devido à presença de cristais de oxalato de cálcio e uma enzima proteolítica inibidora de tripsina. Dado este requerimento, é impossível saborear um fruto no mercado antes de decidir se vai comprá-lo, o que dificulta a seleção e frequentemente deixa o consumidor insatisfeito.
A implicação desta constatação é que a pupunha não compete com outros frutos no mercado, mas com outros amidos. Os demais amidos são apresentados ao mercado em formas frescas e processadas, o que não acontece com a pupunha na Amazônia brasileira, onde é apresentada somente fresca ou cozida. Em Costa Rica, diversas preparações do fruto cozido e enlatado são comercializadas, o que amplia a demanda e permite o consumo em qualquer época do ano. A introdução desse tipo de produto em Manaus depende da existência de empreendedores que vislumbrem uma oportunidade na pupunha.
2. A pupunha é extremamente variável em formato, tamanho, cor do exocarpo e do mesocarpo (devido a diferentes teores de b-caroteno), composição química (Tabela 1), textura, sabor e aroma. Esta variabilidade dificulta a seleção e o consumidor frequentemente compra frutos diferentes do tipo que prefere. Dado esta insatisfação, não surpreende que o consumidor gostaria de ter um produto mais uniforme. Em Costa Rica, os frutos rayados tem relativa uniformidade de textura, composição química e qualidades organolépticas, o que facilita a seleção pelo consumidor. Na Colômbia a pupunha é considerada afrodisíaca e variabilidade não tem sido relatada como problema naquele mercado. Embora os consumidores de Manaus gostariam de comprar pupunha com maior uniformidade, suas preferências variam muito, o que implica na necessidade de selecionar diversos tipos de pupunha para o mercado, o que não tem sido feito até o momento. Para selecionar esses tipos é necessário ter maiores informações sobre as preferências dos consumidores, o que não existe ainda, e cruzar estas preferências com as características das pupunhas nas coleções de germoplasma ou nas raças primitivas in situ.
3. O esforço de P&D enfocou a produção, em vez da transformação, comercialização e o consumidor. Isto resultou em muitas pesquisas biológicas e pouca ênfase no mercado. Na década de 1980, o INPA e diversas agências estaduais fomentaram a produção e os agricultores responderam, aumentando a oferta significativamente. A produção foi baseada em germoplasma de diversas populações da raça Solimões, cujas características físicas e organolépticas comandam bons preços no mercado de Manaus. No entanto, esta produção saturou os mercados locais e causou prejuízos aos agricultores, pois não modificou a demanda e o uso do fruto em Manaus. Na safra de 1999, agricultores do Amazonas produziram ao redor de 13.400 t de frutos de pupunha, 50% mais que a demanda do estado.
4. Mesmo que o esforço de P&D enfocou a produção, não conseguiu desenvolver um esquema de adubação e manejo que resolvesse a síndrome da queda dos frutos, devido principalmente a discontinuidades no apoio a P&D na Amazônia. A pupunheira foi domesticada num sistema de produção onde as plantas podem aproveitar a abundância de nutrientes gerada pela queima da vegetação anterior ou adicionada ao quintal. Sem duplicar a situação nutricional a que está adaptada, a adição de nutrientes pode causar desequilíbrio nutricional, o que parece ser a causa da queda dos frutos. Alguns produtores usam esterco animal para resolver o problema, sem a orientação da comunidade de P&D.
5. Os custos da Amazônia: mercados pequenos e pobres, grandes distâncias e transporte deficiente, escassez de infra-estrutura e agroindústria, fomento ao desenvolvimento viciado ou inadequado, instituições de P&D frágeis e deficientes, solos pobres, clima quente e úmido, biodiversidade agressiva. Estes custos inibem investimentos empresariais e elevam os custos dos produtos regionais, com a conseqüência que produtos regionais custam mais caros que produtos importados, e quando custam mais caros, perdem demanda frente a outros produtos menos caros, inclusive frutas exóticas importadas do sul do país. Para o pequeno produtor enfrentar este ambiente complexo com um produto variável num mercado que demanda uniformidade e que tem muito competição de outros amidos é muito complicado.
6. Localização do principal centro de pesquisas, o INPA. Manaus é uma Zona Franca com ênfase industrial, e a política econômica para o Amazonas foi orientada para esta finalidade desde 1967, embora tenha ocorrido uma tímida política agroindustrial no período 1967-1980. A conseqüência é que o Amazonas possui 98% de sua floresta em pé e não possui um setor primário dinâmico, produtivo e empresarial que poderia adotar a pupunha se a cadeia de produção fosse completa. A localização também viciou a decisão sobre o usuário da pesquisa em favor do empreendedor/empresário agrícola, um ator escasso na região.
7. Escassez de empreendedores que vislumbram uma oportunidade em pupunha. Com a cadeia de produção incompleta, tecnologias de transformação ainda experimentais (nível de laboratório em lugar de nível comercial), fontes de matéria prima desuniformes para o uso alvo, e falta de demanda para novos produtos de amido, não surpreende que é difícil vislumbrar uma oportunidade. Sem empreendedores e empresários prontos para exigir maior esforço da comunidade de P&D, a cadeia de produção não expande além da demanda atual para frutos frescos, que absorve apenas 50% da oferta no Amazonas.
8. A pupunha continua a ser um cultivo do pequeno agricultor familiar, mas o esforço do P&D não enfocou as demandas deste tipo de cliente. Um pacote tecnológico para este cliente incluiria germoplasma com demanda nos mercados locais e em Manaus, e informações apropriadas para plantios agroflorestais e quintais, incluindo cuberturas vivas e mortas que adubam a baixo custo, bem como outras técnicas de manejo. Não entanto, não basta aumentar a produção do pequeno agricultor sem considerar como escoar e comercializar sua produção, como demonstrado pelo fomento anterior. Estas questões extrapolam a competência das instituições de P&D, pois são próprias das políticas públicas do setor primário.
Em resumo, tanto a pupunha, como os esforços de P&D foram deficientes no ambiente político-sócio-econômico da Amazônia Central. As lições para P&D em palmeiras amazônicas que já tiveram ou tem mercados locais são:
1. A história não garante o futuro. Embora a pupunha tenha sido um cultivo alimentar importante na economia de subsistência dos primeiros povos da Amazônia, a economia de mercado que hoje ocupa a região demanda outros produtos, outras formas de apresentação, ou pelo menos uniformidade de qualidade facilmente selecionada pelo consumidor.
2. Identificação clara das preferências do consumidor. A cadeia de produção realmente começa com o consumidor e a falta de clareza sobre seus desejos inviabiliza os outros elos da cadeia. Embora os consumidores possuam gostos tão variáveis como a pupunha, todos tem uma demanda em comum: poder selecionar uma pupunha boa.
3. Identificação clara do cliente de P&D. A maioria dos resultados gerados pelo esforço de P&D foi para a comunidade de C&T ou para um empreendedor hipotético que nunca se apresentou. É perfeitamente possível aperfeiçoar uma cadeia de produção que extende do pequeno agricultor familiar ao consumidor, sem a presença do elo de transformação—onde um empreendedor novo seria essencial.
4. Identificação clara da competição. Em realidade a pupunha deve ser vista como uma macaxeira, batata ou milho arbóreo e não como uma fruta típica. Segue que sua competição inclui as outras fontes de amido, não os frutos suculentos. Com esta competição, o desenvolvimento de produtos processados seria essencial se houvesse empreendedores ou empresários para ocupar este elo da cadeia.
Há 25 anos as palmeiras da Amazônia ocupam um lugar de destaque nos sonhos da comunidade de P&D como cultivos novos em potencial. Somente o açaí-do-Pará (Euterpe oleracea Mart.) se transformou num sucesso neste período e sem que a comunidade de P&D fosse a responsável por sua transformação. O tucumã-do-Amazonas (Astrocaryum aculeatum G. Mey.) está se seguindo o mesmo caminho, outra vez sem muita participação da comunidade de P&D. Ou aprendemos com nossos erros ou as muitas oportunidades da Amazônia terão de esperar por alguem com maior visão que mais tarde exigirá nossa colaboração.