AS NÚPCIAS DAS PALMEIRAS (PRIMEIRAS NOTAS)
JoÃo Barbosa Rodrigues
Barbosa-Rodrigues, João. 1899. As núpcias das palmeiras (primeiras notas). In: Palmae Novae Paraguayensis quas Descripsit et Iconibus Illustravit. Typographia Leuzinger, Rio de Janeiro. pp. 35-51.
Sob o titulo O calor das flôres masculinas da Guillielma speciosa Mart., no sexto fasciculo das Plantas novas cutivadas no Jardim Botânico a pag. 29, me occupei do excessivo desprendimento do acido carbonico das flôres d’essa palmeira no acto da sua fecundação e aqui, agora, vou me occupar do mesmo assumpto, apresentando novas observações em outras espécies.
E’ sabido que no acto da fecundação das plantas ha sempre um augmento de temperatura nas flores, maior ou menor; sendo a maior a observada na abertura das espathas das Aroideas. Balfour () diz, tratando do Arum maculatum, que: “When the spathe opens, the staminal organs schow the greatest heat, and after the pollen is discharged, their temperature falls.”
Nas palmeiras dá-se o mesmo facto no acto nupcial para assegurar a fertilisação, porque para isso, a natureza foi previdente. A dichogamia protandrica ou protogynica é que nos mostra o acto providencial do Creador, com a duração do calor, que sempre é relativo ao apparecimento do momento em que os orgãos femininos tornam-se aptos a receber o germen fecundador.
O poder fertilisante do pollen tem sido observado que dura mais ou menos dias, segundo as especies de plantas, podendo perde-lo logo ou durar horas, dias e mesmo meses. Mas, se bem for estudado o facto, ver-se-ha que, em cada especie, esse tempo é o necessario para a boa fecundação. Depende da structura e da forma das flôres, da sua duraçáo e do desenvolvimento dos seus orgãos reproductores. Se o do Tabaco tem o poder fertilisando só por 48 horas, o das Lobelias por 8 a 10 dias e o dos Orchis por dois mezes, observe-se que alguma necessidade ha para isso, e que esta não se affastará do plano harmonico e mathematico da natureza.
As funcções preventivas para as nupcias, que dão a reproducção da especie, não se darão simultaneamente, ou dependerão de circumstancias que obriguem o pollen a conservar suas propriedades durante o tempo necessario para a completa madureza dos orgãos sexuaes e, mesmo, da vesicula embryonaria.
Na natureza tudo é tão symetrica e harmonicamente feito, tudo está tão ligado, imperceptivelmente, que uma pequena circumstancia pode aniquilar um facto e por isso ella é previdente providencialmente tudo regulando.
Passo a apresentar algumas das minhas observaçôes.
Apresentando a Orbignya speciosa Barb. Rod., cultivada n’este jardim e que como nova descrevi no fascículo das Plantas novas (), uma magnifica spatha, ancioso e pacientemente esperei a sua dehiscencia. Com effeito no dia 8 de Novembro apresentou um esplendido espadice, cujas flores começaram a se desprender no dia seguinte com certa elasticidade. Aproveitei o momento em que se operava a fecundação e quando em grande numero as flores masculinas saltavam dos ramos, apanhei uns quinhentos centimetros cubicos d’ellas que colloquei em uma capsula de porcellana, cobrindo a base de um thermometro. Esperei a mudança da temperatura.
O dia estava excessivamente quente, e, se bem estivesse limpa a atmosphera, o calor indicava chuva.
A’s 9 1/4 horas da manhã, comecei a observação marcando então o thermometro, á sombra, 28ºC ou 22º Reaum, para a temperatura do ambiente.
Quinze minutos depois, posto se conservasse o calor atmospherico a 28º, o das flôres se elevou a 30º. Meia hora depois, isto é, ás 10 horas, a temperatura das flores attingiu a 31º e ás 10 1/4 horas a 32º, havendo por conseguinte em uma hora um augmento de temperatura de 4º acima do da atmosphera. No primeiro quarto subiu rapidamente dois gráos, levando depois meia hora para subir um gráo, para rapidamente tornar a subir outro gráo dentro de um quarto de hora. Esta temperatura de 32º conservou até ás 12 horas da tarde, começando então a descer na primeira hora um gráo, depois de meia em meia hora outro, a attingir a temperatura de 28º ás 2 horas da tarde, hora em que também o céo rapidamente escureceu, começou a fuzilar e a ribombar o trovão, cahindo momentos depois grossa chuva.
Esta observação confirma a de que me occupei, no fasciculo citado. N’esta Orbignya a temperatura não se elevou tanto como na Guillielma coccinea, mas attingiu quasi á observada pelo Dr. Martius, nas espathas de outras especies, o qual nunca encontrou mais do que 5º acima do ambiente.
Este facto confirma que o acto da fecundação eleva extraordinariamente o calor nos orgãos reproductores de maneira que no momento propicio, quando as antheras se abrem e o pollen se ejacula o calor augmenta e o conserva por algumas horas, para depois decrescer por algumas horas, a attingir o do ambiente.
Essa elevação de temperatura torna proficua a fecundação. O contacto do pollen com o estigma, passado esse calor vital ou se elle não se produzir, a fecundação não se faz. A demora do calor é providencial. Caso, no rompimento da anthera o pollen não possa chegar ao estigma, ou este não esteja ainda preparado para recebe-lo, conserva não obstante o calor esperando a brisa ou os insectos que sem demora se aprsentam para conduzi-lo. Com effeito, o effluvio que se derrama logo que a espatha se abre, atrahe immediatamente os insectos que começam a esvoaçar e de flor em flor a depositar a materia fecundante, directamente ou fazendo-a desprender-se e a cahir sobre as flores femininas.
Se por um caso qualquer, na anthese, o calor não se desenvolve, as flores abortam e d’ahi presumo o facto de espadices androgynos, cobertos de flores não fructificarem como tanto tenho visto.
Sabemos que a natureza toma muitas precauções para que com facilidade se opere a fecundação e esta seja garantida e proveitosa, e entre outras apparece esta.
A força activa que eleva os estames, os volve, os curva, ou alonga os pedunculos no acto nupcial, que se dá em muitas plantas, aqui apparece na dehiscencia das antheras com o augmento de calor. Não posso precisar se elIe é desenvolvido em toda a flor e se propaga pelos estames ao pollen ou se só os estames e o pollen o adquirem, mas creio que a séde principal é nos estames, que de incurvos, se indireitam ou se patenteiam no momento da abertura das antheras movidos pela energia que adquirem com a maior somma de oxygeno que absorve a flor. Essa força colorifera, pondo em erecção os estames, fórça as pételas a se abrirem e produz a abertura das antheras e a immediata ejaculação do pollen, que sahe gradualmente augmentando seu calor.
Essa força vital concorre para a boa fecundação. Previdente a natureza rodeou a fecundação de precauções que asseguram a proficuidade e por isso conserva nas flores, por algum tempo a tempetura necessa ria, se bem que desprendida dos ramos. Pelo peso proprio, as flores das palmeiras, não são levadas pelos ventos, cahem perpendicularmente do espadice ao solo e, como são aos milhares, ahi se amontoam. Mesmo no solo conservam o calor que, em vez de diminuir, augmenta. Com que fim, se já fóra de seus ramos, como orgãos inúteis, foram regeitadas pela árvore mãi? A natureza tudo previne com muita sabedoria. As vezes, ha dichogamia protandrica quer os espadices sejam androgynos ou monoicos. O espadice masculo abre as suas flores, antes do outro espadice apresentar as flores femininas promptas a serem fecundadas e então a fecundação não se dará porque quando os estigmas de umas apparecem, o pollen das outras tem desapparecido. Outras vezes dá-se o facto contrário, ha a dichogamia protogynica. Para remediar esse mal, a natureza conserva e augmenta o calor nas flores desprendidas, porque os insectos se encarregarão da transmissão. Reunidos no solo, colhendo o pollen das flores despegadas passam destas para as dos espadices e nas femininas, colhendo o nectar dos estigmas para sua subsistência, isto serve também para dar um meio de conduzir o pollen operando assim a fecundação.
A demora da temperatura assegura, por meio dos insectos, a fecundação, que, presumo, se não daria se logo depois da abertura dos loculos das antheras esse calor vital desaparecesse. Nas pa!meiras, pelo menos, só o pollen excitado pelo calor pôde produzir uma fecundação productiva, e o que concluo das minhas observações.
Entretanto, ha exemplos históricos, que nos mostram que não ha regras sem excepções, pois dizem não ser isso preciso, pelo menos, em relação ás Phoenix e aos Chamaerops, pois que o pollen d’estas palmeiras conservam o seu poder fecudante por largos tempos. Isso nos assegura Kempfer e Gleditsch. O pollen do Chamaerops humilis, transportado de Leipzig para Berlin, em 1751, fecundou ahi um exemplar; outro da mesma especie, levado de Karlsruhe para S. Petersburgo, em 1767, foi fecundante, isto nos affirmam os autores acima e Koëlreuter.
Em Santa Helena tambem foram fertilisadas algumas tamareiras com pollen, levado da Africa.
Não influirá o clima? Dar-se-a em todas as palmeiras este poder fecundante? O que é exacto e tenho visto é o aborto de flôres femeas, cobertas de milhares de masculinas sem que estas se fecundem, por ter havido a apparição do estigmas fóra das petalas, muito posteriormente à anthese das masculinas. Se bem que as masculinas ainda tenham o pó fertilísador, comtudo náo ha fecundaçáo, creio que por ter passado o tempo preciso, isto é, ter apparecido os estigmas depois do resfriamento. ou ter passado a força vital dos estames.
Outra observação. Uma Pinanga Kulilii, formando uma explendida soqueira, coberta de numerosos espadices de fructos verdes, no dia 14 de Novembro apresentava seis v igorosos espadices aodrogynos de flôres, cujas espathas se despegaram deixando os ramos nús. No dia 15 ás 6 horas da manhã ainda as flôres masculas estavam fechadas, mas já as femeas apresentavam os seus estigmas tumefactos, hum idos e promptos a receber o pollen fecundante. Havia perfeita dichogamia protogynica. Attrahidas as abelhas percorriam os ramos, passavam sobre as flôres femeas, não se detinham sobre ellas, não se importavam com os estigmas, e pelo contrario forçavam a união das petalas, introduzindo as anthenas para abri-las, inst:nctivamente conhecendo, que estavam prestes a desabrochar. Com efeito ás 6 ½ horas começaram as flôres a se abrir, espalhando immediatamente o pollen que voava com o elasterio da abertura das petalas, dando-se immediata pollinisação.
Examinando as flôres observei que pouco antes da anthese, já tinha havido a dehiscencia das antheras. Os estames erectos nas flôres fechadas, no momento da fecundação, quando o calor vital os anima. procuram tornar-se patentes e essa força obriga as petalas a se abrirem e a espalharem immediatamente o pollen, que em abundancia se derrama sobre as flôres femeas.
N’essa oecasião desprende-se o calor, mas a temperatura nao se eleva a mais de dois graos, perdurando apenas uma hora. Isto foi conscienciosamente observado.
Por que é menor a temperatura e por que pouco esta se conserva? Porque sendo a flôr femea protogynica, está apta a ser fecundada immediatamente após a anthese das flôres masculas, foi o que conclui depois de outras observações.
Nesta especie ainda observei que as flôres logo após a sua anthese se despregavam todas dos ramos, nos mostrando que a sua funcção estava terminada, a fecundação estava feita.
Este desprendimento rapido dispensa o augmento de temperatura, porque não tem de esperar que se tornem aptas as flôres femeas para o acto da fecundação. Quando ha dichogamia protogynica o calor é menor e dura menos.
Em geral, nas flôres monoicas e protandricas das palmeiras, as masculinas se demoram muitas horas, sem se despegarem, apezar de abertas, quando a dehiscencia das antheras é posterior á abertura das petalas.
Ainda uma outra observação, que me leva a formar o meu juízo e me contraprova .
Dois espadices, de um magnifico Elaeis Guyneensis (Cõco de dendê), um masculino e outro feminino, no mesmo exemplar, e proximos, apresentavam dichogamia protandrica.
Eram 10 horas e 40 minutos da manhã, quando desabrocharam as flôres masculinas. A temperatura atmospherica era de 27º cent. A’s 10 horas e 50 minutos a temperatura das flôres elevou-se a 28º, ás 11 a 29º, ás 11 e 15' a 30,5º e ás 11 e 25’ a 31º. Nesta temperatura se conservou até as 2 horas da tarde, em que começou a declinar, tendo as 3 horas 29,5º,. quando a temperatura do ambiente se conservava a 27º.
A’ 1 hora e 40 minutos da tarde appareceram os estigmas das flôres do espadice feminino e meia hora depois as flôres tomaram a temperatura atmospherica.
Um outro exemplar de Elaeis deu uma só espadice macho, cujas flôres levaram 48 horas a se abrir. Estas tiveram um augmento de 2º nas primeirras 24 horas, passando depois a ter a temperatura da atmosphera.
Durante todo esse tempo diversas especies de abelhas, entre ellas a Faty e a Yawana ou cachorra, cobriam as flôres machos, sem se importarem com as femeas.
Fiz outra observação num espadice androgyno do Cocos eriospathoz, também de flôres protandricas, as quaes tio duraram quatro horas, com a temperatura elevada, 3º acima da do ambiente e só depois d’esse tempo começaram vagarosamente a cahir, depois do apparecimcnto dos estigmas, entrando em decrescimento o calor.
As ultimas observações foram feitas directamente nos spadices, para melhor observar quando começava a desenvolver-se o calor.
No Cocos como os ramos são divaricados e não perfeitamente embricados, como no Elaeis. uni todos os ramos e na massa compacta appliquei o instrumento. As comparações foram feita sempre com dois thermometros rectificados para acompanhar melhor a marcha da ascensão mercurial e ver a differença entre as duas temperaturas, a do ambiente e a das flôres.
No Cocos picrophylla Barb. Rod., de spadice androgyno dichogamo-protandrico, em um quarto de hora a temperatura das flôres subiu dois grãos isto é, sendo a da atmosphera de 27º cent. Subiu a d’ellas em um quarto de hora a 29º, começando depois de uma hora a descahir, a chegar á da atmosphera. Comecei a observação ás 11 horas da manhã e ao meio-dia estava terminada. Durante esse tempo desabrocharam as flôres femeas e começaram, com rapidez, a cahirem as machos, com as antheras quasi completamente vasias, por ter o pollen, com o patenteamento dos estames, sido todo expelido. Devo notar que a queda das flôres masculinas auxilia o derramamento do pollen pelo choque nos ramos e de encontro a outras.
Outras observações tive occasião de fazer, que também contribuem muito para o estudo da fecundação, apresentando factos de importância.
Uma Wallichia caryoboides Roxb. apresentou simultaneamente dois magnificos, fortes e robustos espadices de flôres, sendo um masculino e outro feminino. Dezoito dias depois da abertura das espathas e de expostas as flôres ao ar, estando todas bem desenvolvidas, começaram bruscamente a cahir as flôres masculinas, sem que houvesse a anthese. Estando perfeitamente desenvolvidas e com as antheras engorgitadas, não se deu, apezar disso, a dehiscencia das petalas; cahiram as flôres completamente fechadas. Coincidio, entretanto, o facto com o appaarecimento incompleto dos estigmas das flôres femeas. Diariamente observava a temperatura, que nunca se alterou, foi sempre a do ambiente. Quando começou a queda das flôres, observei por mais de duas horas e não houve alteração também da temperatura. As abelhas, n’essa occasião, cobriam os ramos, mas desesperadas voltejavam por não poderem colher o pollen. Algumas roiam o apice das petalas, mas era perdido o trabalho, porque logo as flôres se despegavam e cahiam.
Não houve, pois, fecundaçao por impotencia, pela falta do calor vivificador que energicamente activa e fortalece os orgãos.
Notei então o que apezar do specimen ser vigoroso e bem desenvolvido, nunca fructificou, dando, não obstante, já por quatro annos consecutivos, lindos espadices. Os mesmos factos também observei na Martnezia erosa Mart.
Vê-se por ahi que o calor que as flôres adquirem no acto da fecundação é absolutamente neccssario para dar vigor e vida aos orgãos que têm de perpetuar a espécie. Sem elle tornam-se impotentes e se bem que em si contenham as molleculas proliferas desenvolvidas, sem serem cxygenadas tornam-se inúteis.
Observadas escrupulosamente as nupcias da Martynisia caryotefolia, esta apresentou-me outra contraprova, Durante um dia simu1tanea e gradualmente desabrochavam as flôres masculinas e as femininas, na proporção média de vinte d’aquellas para uma destas. A temperatura entre a atmosphera e a das flôres em doze horas não excedeu nunca de um e meio grao.
Essa pequena elevação de calor, ligada ao facto de no espadice androgyno, gradualmente ambas as flôres simultaneamente desabrocharem, nos mostra que sendo graduada a anthese das flôres, e por consequencia as suas nupcias, desnecessário é a grande elevação da temnperatura, porque demorado é o acto da fecundação, e sempre no mesmo spadice ha novas flôres que substituem aquellas que pelo tempo percam o calor. O acto nupcial é sempre assim garantido.
Na Geomona Schattana Mart. observei n’um espadice androgyno, mas de urna verdadeira dichogamia protadrica, que as flôres, depois da dehiscencia das antheras, e estas quasi murchas, não apresentaram movimento algum de temperatura.
Com effeito, raros são os espadices androgynos das Genomas que simultaneamente as flôres desabrocham; sempre ha dichogamia protandrica demorada pelo que a fecundação é sempre feita pelas flôres de outro espadice . Sendo muito demorada a apparição das flôres femininas depois das masculinas, às vezes mais de tres dias e dando sempre muitos espadices comtemporaneos, que desabrocham successivamente, é inutil a duração do calor porque para as flôres velhas haverá sempre novas que as fecundem.
Um Bactris caryoteofolia Mart. forneceu-me um boa observação com a sua dichogamia protogynica. Um individuo apresentando dous espiques em cada em dos quaes deu um espadice androgyno, que se desenvolveram ao mesmo tempo.
No dia 26 de Dezembro, pelas 5h e 45’, houve a dehiscencia da espatha de um e só no dia 27, á 1 hora da tarde, começou a dehiscencia das flôres masculinas, apresentando-se as femininas com os estigmas engorgitados e exhudando nectar desde o dia 26, uma hora depois da dehiscencia da espatha.
Á 1 hora da tarde, como disse, começaram as abelhas e pequenos dipteros a afluir para os ramos e as flôres masculinas a abrirem as suas petalas e os estames a se levantarem. A temperatura do ambiente era então de 27º cent. Applicado n’esse momento o thermometro, que anteriormente deu nas flôres a temperatura do ambiente, começou a elevar-se a columna mercurial. À 1 h e 30' apresentou-se já a temperatura de 33º, as 2 h a de 34º que conservou até ás 3 h. A esta hora os estames recurvaram-se e algumas antheras tocaram os estigmas, despojando-se do pollen. Tinha attingido o maximo da temperatura, que começou a declinar, tendo ás 3h e 30' — 33º, ás 4h — 32º, às 4h 30' — 31,5º, ás 5h — 30º e às 6 – 28º e às 7h a temperatura de 26º, que era então a do ar.
Ás 5h quando a temperatura desceu a 30º começaram as flôres masculinas a cahirem dos ramos e o grande movimento dos insectos.
Quando observava a marcha crescente do calor e o movimento dos estames e das antheras no maximo do calor, isto é, quando ás 3h attingiu a 34º, com um estalido abriu-se a spatha do segundo spadice, apresentando todas as flôres fechadas. Querendo fazer outra observação em relação ás flôres femininas, esperei que os estigmas rompessem as petalas. Com efeito ás 4h se apresentaram, conservando-se comtudo as flôres masculinas completamente fechadas. Tornando as temperaturas appliquei o thermometro, que teve a seguinte marcha, relativa ao crescmmento e engorgitamento dos estigmas
3hTarde —27º Cent. 6h —33º,5
4h —30º 6h15' —32º
5h —32º 6h20' —31º
5h20’ —33º 6h30' —30º
5h30' —34º,5 7h —28º
75 — 26º,5
Durante esta marcha ascencional e descendente a temperatura da atmosphera desceu de 27º a 26º. Ás 8 horas da noite os estigmas estavam completamente exsertos com os lobulos tumefactos e erectos exhudavam nectar, porém as flôres masculinas se conservavam completamente fechadas.
A temperatura do espadice d’ahi em diante acompanhou a da atmosphera. As 10 horas da noite marcava 23º.
No dia 28, pelas 6 horas da manhã, começou a affluencia dos dipteros e as petalas a desabrochar-se. A temperatura quer das flôres, quer da atmosphera, era então de 23’ cent.
Começando logo a elevar-se a temperatura das flôres, tive a seguinte marcha:
Ás 6h½m —23” Cent. 9h — 30º
7h —31º 10h —29º,5
7 ½ —31º 11h —29º
8h — 31º,5 12 tarde — 27º
A temperatura de 27º era tambem a da atmosphera.
Quando, declinando a temperatura, attingiu a 29”, começaram as flôres masculinas a se desprenderem dos ramos. As 5 horas da tarde só existiam nos ramos as femininas.
N’estas cxperiencias a temperatura das flôres elevou-se a quasi 9º.
Estas duas observações, feitas simultaneamente em espadices de um só individuo, com todo o cuidado e escrupulosamente, confirmaram os factos anteriores e me fizeram ver que na anthese das flôres femininas, no seu preparo para receber o osculo masculino, a sua temperatura também se eleva, como nas masculinas. D’ahi vem talvez a propriedade dc fazer reviver a força fecundante do pollen, depois do seu resfriamento.
As nupcias dos Bactris conccina Mart. e setosa Mart. confirmaram-se depois as do B. cariotefolia que se deram com as mesmas solemnidades.
A dichogamia, vulgar nas palmeiras, se demora a polinisação em um exemplar isolado ou que dá um só espadice, flôres protandricas ou protogynicas, favorece entretanto a fructificação em um palmar. Se protandrica em um especimen, os insectos levarão o pollen para outro cuja flôrescencia é protogynica e assim assegura a fecundação, levando o pollen, ainda quente e excitado para o estigma tumefacto de outra flôr de outro exemplar. A demora e a elevação da temperatura nos grãos de pollen, contribuem e facilitam a fecundação, não só 50 em uma planta como em muitas. O pollen das palmeiras, depois da queda da temperatura, abandonam as antheras e por si cahem seccos e infecundos. Raro é encontrar-se pollen nas antheras das flôres, que abandonaram os ramos. Baixando a temperatura cae o pollen e as antheras murcham e seccam. Frio o pollen tendo perdido a energia vital, conservará, entretanto, a sua propriedade fertilisante?
Se o calor para a fecundação não é necessário, por que para a união sexual, as flôres augmentam a sua temperatura?
Para que nesse momento próprio absorvem então mais oxygeneo?
Não é essa absorpção, o desprendimento de carbono, que dá a energia dos orgãos, que os tornam aptos para dar e receber o germen que perpetuará a espécie? A natureza inutilmente dar-se-hia ao 1uxo de ostentar uma funcção caloriferas nas flôres, sem utilidade?
Natura enim non facil saltus, sabiamente nos disse o o grande mestre Linneo, e do seu sentíre para o vivere apparece aqui uma funcção idêntica.
Excitados por esse calor que abala toda a flôr, os órgãos se activam, entram em movimento, dão-se as nupcias e caem depois no abatimento, que demonstra a completa fecundição.
As flôres masculinas murcham e cahem e as femininas se fortalecem e crescem. Terão os estigmas, na sua excitação nupcial, com o oxygeneo que absorve, com o grande calor que adquire o poder de fazer com que o polen, tempos depois. se reanime e adquira seu poder fecundante? O calor que os estigmas desenvolvem, o líquido glutinoso e metacanifero que os envolverá, produzindo-lhe entumescimento, o chamará a vida? À estada fora do meio apropriado não lhe fará perder a faculdade geradora como a semente perde a germinativa?
Há factos, corno disse que provam que tempos depois o pollen de algumas palmeiras; de longe, fertilizaram outras, como se dá entre outras plantas;, mas se assim é, fica latente a faculdade fertilisante do pollen sob o véo da morte, para reapparecer ante uma propriedade ainda mais vital do estigma que suppere com o seu calor o que antes é neccessario ao pollen.
Como no reino animal, a natureza, no vegetal, dá um momento propicio á reproducção da especie, que fóra d’elle é impossivel. Esse momento é o do maximo da temperatura. Só o artificio humano o conseguirá. Como o sperma, o pollen só produzirá seus effeitos por intemédio dos artificios do homem, sem a força que motiva a ejaculação, De artifícios não cuidou a natureza, que tudo faz por leis sabias e immutáveis, ligadas como élos de uma cadeia infinita.
Quando a evidencia mostrou a sexualidade das plantas, esse facto causou um assombro geral. A prova dos dois sexos nas plantas, foi um dos élos que ligou o animal ao vegetal e o calor que se desprende das flôres, na po1inisação, é outro élo que identifica as nupcias animaes ás vegetaes.
As palmeiras, essas rainhas do reino vegetal foram as primeiras que fizeram ver ao homem, que as plantas não se afastavam da animalidade, na sua funcção geradora. As plantas, como o homem, festejam as suas nupcias mas, muito mais festivamente, porque para isso, quando a epocha se approxmma, cobrem os seus orgãos reproductores com roupagens de galas, de côres modestas ou deslumbrantes, que. como docéis occultam das vistas profanas o movimento mysterioso, que se dá no leito de seus amores. Das flôres as petalas luxuriantes, protegendo, velam o thalamo nupcial.
Os Babylonios foram os primeiros, segundo Herodoto, que desconfiaram que as palmeiras tinham dois sexos e que esses representavam espcimens diferentes, pelo que, artificialmente derramavam o pollen do espadice de uma tamareira sobre o de outra para determinar a producção dos fructos.
Mais tarde Cesalpinio, naturalista italiano, Nehemio Grew, sabio inglez, Camerarius, Sebastião Vaillant, reconhecem a divisão dos sexos, até que foi solemnemente provada e prolamada por Liumeo, estabelecendo o seu admiravel systema da classificação.
Não é occasião, nem aqui posso estender-me sobre o assumpto, porque meu fim é apresentar, sómente, o resultado de observações que fiz, mas folgo que fossem ainda as palmeiras, que viessem nos mostrar, que como o homem, na epocha de seus amores, ellas tambem se ellectrisam, por assim dizer, no acto de suas nupcias.
Das minhas observações, além das que refferi, feitas em varios generos no grande palmar deste Jardim, concluo que nas nupcias das palrneiras ha sempre:
— Grande augmento de temperatura no acto da dehiscencia dos orgaos reproductivos;
—Que esse augmento e providencial e maior ou menor quando ha dichogam ia;
— Que se não ha dichogamia e simultaneamente desabrocham as flôres masculinas e femininas, o calor nunca excede dois graos acima da temperatura do ambiente, porque a poihinisação se faz immediata e naturalmente ou auxiliada pelos insectos;
—Que neste caso o calor que adquirem as flôres é apenas o necessário para dar energia e força aos estames (), para entrarem em erecção e produzirem a dehiscencia das antheras e a immediata ejaculação do pollen;
— Que quando ha dichogamia protandrica a temperatura attinge então uma grande elevação, e esta é demorada. Emquanto amadurecem os estigmas, isto é, enquanto se preparam para receber o pollen, nao só pateteando-se como adquirindo a força precisa para o acto fecundador, o calor nos orgàos masculinos cresce e se demora, para descahir lago que o orgão feminino tornou-se apto a receber a foxilla;
— Que n’esta dichogamia, quando os espadices são monoicos, em geral, são os insectos ou as brizas os intermediarios da fecundação, e quando são androgynos então directamente ella se effectua;
—Que passado o momento próprio, as flôres masculinas deixam immediatamente os seus ramos;
—Que a demora das flôres masculinas nos ramos; depois da dehicencia, que pode ser mais de 24 horas, é relativa ao tempo da anthese das femininas;
—Que quando as nupcias dão-se logo depois da abertura das espathas, isto é, quando a dehiscencia é simultanea, mornentos depois as flôres se despegam e cabem;
—Que quando ha dichogamia protogynica o calor que adquirem as flôres, tambem é apenas o necessario porque logo que se da a dehiscencia das flôres masculinas faz-se a fecundação e as flôres cahem;
— Que na dichomia protandrica, quando é muito demorada, as flôres masculinas se despegam, ás vezes, mas acarretam consigo a temperatura obtida nos ramos, e, em vez de diminuí-1a, a conservam e a augmentam para que dê lugar á fecundação feita, então, só por meio dos insectos;
—Que a demora do calor e o seu augumento, n’este caso, nos prova que esse augumento de temperatura é necessário para que se dê uma verrdadeira, completa e proveitosa fecundação;
—Que sem esse calor vital os ovulos mal fecundados produzem fructos; que abortarão, ou se desenlverão atrophiados, não sendo reproductøres;
—Que quanto mais promptas são as nupcias tanto menor é o calor e quanto mais demoradas, pela dichogamia protogynica mais elevada e mais demorada é a temperatura;
—Que na dichogamia protogynica as flôres femininas adquirem tambem grande calor que perdem depois da sua anthese e de ficarem aptas para serem fecundadas;
—Que a excitação e o augmento de temperatura que se dá no animal na epoca de seus amores dá-se no mesmo caso nas flôres das palmeiras.
—Que para ser profícua, como no acto da fecundação animal, o augmento de calor é necessário nos órgãos reproductores dos vegetaes;
—Que- sem o excitamento provocado e desenvolvido pelo calor, as flôres não adquirem a energia e a força vital precisa, para movimentar os orgãos que tornam-se verdadeiramente impotentes.
Natura enim non facil saltus!