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A ORIGEM DA PUPUNHA

Jacques Huber

A patria da pupunha (Guilielma speciosa Mart.) tem sido objecto de diversas conjecturas, os autores mais competentes concordando no juizo que ella deve achar-se ao pé dos Andes, no Perú ou na Bolivia; mas até aqui a pupunha ainda não foi descoberta no estado selvagem. O illustre director do Jardim Botanico do Rio de Janeiro, em publicação recente (Sertum palmarum brasiliensum 1 p. 49) tem tratado d’esta questão a proposito da descoberta d’uma especie nova que elle achou no Estado de Mattogrosso, em florestas virgens. Esta especie (G. mattogrossensis Barb. Rodr.) que se distingue da pupunha pelas drupas menores e encarnadas e pelo tronco isolado, assim como pelos espinhos do tronco e das folhas muito mais fortes e numerosos, é considerada pelo Sr. Barbosa Rodrigues como sendo talvez a forma primitiva da pupunha. “Qui sait, pondera o illustre botanico, si les graines de cette espècie, en immigrant par les rivières Madeira e Tapajoz, ne sont pas arrivées dans l’Amazonas ou le palmier s’est acclimaté? Qui sait si par la culture, pendant des centaines d’années, il n’a pas changé son aspect, perdu ses épines et atrophié ses graines?”

Já em 1898, quando com o meu amigo Dr. Marmier, attravessei o pampa de Sacramento, entre os rios Ucayali e Huallaga, encontramos, crescendo espontaneamente nas varzeas do rio Chipurana, uma fórma de pupunha que os indigenas chamavam pucacunga pijuaio, isto é, pupunha de jacú. Na occasião estas palmeiras não tinham nem flores nem fructos, mas os indios affirmavam que os fructos eram muito menores que os do pijuaio cultivado e que eram de côr vermelha muito viva. Achei ao pé das palmeiras alguns individuos novos que levei para o Jardim Botanico do Pará onde elles agora já têm mais de 5 m de altura, começando a florescer. Como não tinha examinado os orgãos de reprodução, quiz esperar até que estes exemplares produzissem flores e fructos, antes de mé pronunciar sobre a sua classificação exacta. Apenas adoptei, para pôr nos rotulos do jardim, um nome provisorio, classificando a palmeira no grupo especifico de Guilielma speciosa, sob o nome de variedade microcarpa Hub.

A existencia espontanea da “pupunha de jacú” na bacia dos rios Huallaga e Ucayali não soffre duvida, ella me foi confirmada por diversas pessôas, e outros informantes me indicaram a sua distribuição larga no alto rio Juruá. Ultimamente tive occasião de encontrar outra vez esta interessante palmeira no alto rio Purús, onde ella é frequente tanto na terra firme como tambem nas varzeas altas, sendo conhecida sob o nome de pupunha brava. Esta vez encontrei-a carregada dos seus numerosos cachos de pequenos fructos vermelhos que na sua opposição com as folhas d’um verde escuro e brilhante, produzem um bellissimo effeito. Achei a pupunha brava na terra firme de Antimary (rio Acre), na varzea de Ponto Alegre (alto Purús) e na terra firme de Monte Verde (pouco abaixo da bocca do Acre). Não tenho visto abaixo da embocadura do rio Pauhiny. A sua área geographica extende-se por conseguinte sobre uma grande parte das bacias dos affluentes meridionaes do alto Amazonas, do rio Huallaga até o alto Purús e Acre, e provavelmente até o rio Madeira.

Apezar de approximar-se da G. mattogrossensis pelas dimensões menores dos fructos (estes são quasi perfeitamente globosas, tendo só 16 mm de comprimento sobre 15 mm de diametro, emquanto que o Sr. Barbosa Rodrigues indica para o G. mattogrossensis o diametro de 2 cm), pelo tronco coberto de espinhos pretos bastante fortes e pelas folhas verde-escuras, a nossa palmeira distingue-se d’aquella pelos troncos formando toiceira e pelas folhas e espathas menos espinhosas que na G. mattogrossensis. (*) Por estes caractéres ella justamente se approxima mais da G. speciosa, com a qual tem um parentesco evidente. Entretanto cheguei á convicção que ella não póde ser simplesmente a fórma primitiva d’esta especie; preferi por isso mudar o seu nome de variedade em nome especifico chamando-a de Guilielma microcarpa Hub.

Diversas razões me induzem cada vez mais a considerar a pupunha cultivada como um producto de cruzamento entre duas especies distinctas. Na minha supposição, a G. microcarpa seria uma das parentes, a outra seria provavelmente a G. insignis de Martius, especie ainda pouco conhecida da Bolivia sub-andina, que entretanto, segundo o testemunho do explorador francez d’Orbigny que a descobriu, teria fructos amarellos e bastante grandes (do tamanho d’um pequeno ovo de gallinha). Pela hypothese d’uma origem hybrida da pupunha cultivada, explica-se muito melhor não só a variabilidade nas dimensões, na côr e na constituição ora mais oleosa ora mas feculenta do pericarpio, mas principalmente o aborto tão frequente da semente com o respectivo endocarpio e talvez tambem a reducção ou a disparição completa dos espinhos no tronco e nas folhas. Me parece impossivel considerar todos estes caractéres da pupunha cultivada como um resultado da cultura e selecção por parte dos indios, cuja agricultura é tão rudimentar, principalmente a respeito das arvores fructiferas.

Segundo o que sabemos até agora sobre a distribuição da G. microcarpa e da G. insignis, não é impossivel que as suas áreas de dispersão se confinem em qualquer zona ao sul do alto rio Purús, nas bacias do Beni ou do Mamoré. N’aquella zona ter-se-ia produzido accidentalmente, segundo o meu pensar, um ou diversos hybridos, appresentando certas vantagens sobre as especies parentes, vantagens que motivaram a sua cultura por parte dos indios, que os teriam espalhado nas suas migrações ao norte até a Venezuela, ao éste até a bocca do Amazonas.

Dr. J. Huber

(*) Não é impossivel que as differenças entre a G. mattogrossensis e G. microcarpa desappareçam quando estas estiverem melhor conhecidas, e que as duas especies tenham então de ser consideradas como synonymas.