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PUPUNHA: RECURSOS GENÉTICOS PARA A PRODUÇÃO DE PALMITO

Charles R. Clement

Clement, C.R. 1997. Pupunha: Recursos genéticos para a produção de palmito. Horticultura Brasileira, 15 (Suplemento): 186-191.

RESUMO: O cultivo da pupunha (Bactris gasipaes Kunth, Palmae) para a produção de palmito está em franca expansão no Brasil. Os recursos genéticos da pupunha e sua utilização eficiente deveriam ser componentes importantes desta expansão. A identificação de germoplasma promissor para palmito depende de um ideotipo, que deveria ter como mínimo pecíolos inermes, alta taxa de crescimento relativo, bom perfilhamento, palmitos de bom tamanho, e ausência da enzima associada ao oxalato de cálcio. Os espinhos do pecíolo posuem baixas herdabilidades e sua presença ou ausência afeta minimamente a produtividade mas poderiam ser importante economicamente. Existem três populações de pupunha com razoáveis frequências de plantas inermes: Yurimaguas, Perú; San Carlos, Costa Rica; Benjamin Constant, Brasil. As populações de Yurimáguas e Benjamin Constant estão bem representadas nas coleções de germoplasma do INPA e a de Yurimáguas nas coleções do IAC. No entanto, por falta de políticas agrícolas nacional e regional com fortes componentes de pesquisa e desenvolvimento, estas coleções não estão sendo bem utilizadas. Para que estas coleções desempenhem sua função, os programas de melhoramento precisam ser feitos em parceria com o setor privado, pois a curto prazo não se pode esperar muito dos govêrnos.

AbBSTRACT: Pejibaye: Genetic resources for heart-of-palm production. The cultivation of pejibaye (Bactris gasipaes Kunth, Palmae) for its heart-of-palm is expanding rapidly in Brasil. The genetic resources of pejibaye and their efficient utilization should be important components of this expansion. The identification of promising germplasm for heart-of-palm depends upon the ideotype we use, which should have a minimum of spineless petioles, high relative growth rate, good offshoot production, good sized hearts, and the absence of the enzyme that is associated with calcium oxalate crystals. The spines on the petiole have low heritabilities and the presence or absence has little effect on yields but could be economically important. Three pejibaye populations with reasonable frequencies of spinelessness exist: Yurimaguas, Peru; San Carlos, Costa Rica; Benjamin Constant, Brazil. The populations of Yurimaguas and Benjamin Constant are well represented in INPA's germplasm collection and that of Yurimagas is in the IAC collection. Nonetheless, due to the absence of national and regional agricultural policies with strong research and development components, these collections are not being well used. For these collections to be useful in the current political climate, improvement programs must be done in collaboration with the private sector, since in the short term not much can be expected from government.

A qualidade dos recursos genéticos interage com o manejo agronômico para determinar a produção biológica e econômica de um cultivo. No caso da pupunha (Bactris gasipaes Kunth), os povos nativos de Amazônia a América Central nos deixaram recursos genéticos extremamente variáveis e bem adaptados aos agroecossistemas do trópico úmido. Embora estes povos tenham domesticado a pupunha para fruto, seu palmito é hoje uma agroindústria altamente rentável que está se expandindo rapidamente na América tropical. Felizmente, os povos nativos também deixaram muitos recursos genéticos excelentes para a produção de palmito, mesmo que este uso tinha pouca importância para eles. No presente trabalho, farei um levantamento do estado atual de conhecimento sobre (1) o ideotipo de pupunha para palmito, (2) a genética e a importância de espinhos, (3) as populações de pupunha com menor frequência de espinhos, (4) as coleções de germoplasma disponíveis no Brasil, e (5) as dificuldades enfrentadas pelos institutos de pesquisa para utilizar este germoplasma. A informação disponível sobre os recursos genéticos da pupunha para a produção de palmito é apreciável; no entanto, esta não basta para garantir a continuidade de um programa de melhoramento e a entrega de germoplasma de elite aos produtores. Políticas agrícolas nacional e regional, com apoio financeiro para pesquisa e desenvolvimento, são as pedras fundamentais que estão faltando no Brasil.

1. Um ideotipo de pupunha para palmito

Mora Urpí & Weber (1997) aprimoraram o ideotipo apresentado por Clement et al. (1988), propondo 19 caracteres (Tabela 1). Este ideotipo é muito específico para um mercado (o de exportação = o dos supermercados), embora possua um caráter que se refere ao mercado in natura. O mercado in natura, no entanto, exigirá atenção à presença de oxalato de calcio, pois, na presença de uma enzima ativadora, os cristais causam irritação na boca e na garganta e podem até causar reações alérgicas com complicações médicas importantes (N.Y. Nagai, Univ. Hawaii, com. pess., 1995). Também, não está claro se o mercado in natura exigirá palmitos pequenos; o mercado criado no Havaí por Clement et al. (1996) optou por palmitos maiores que os do supermercado. O mercado dos churrascarias não foi considerado por Mora Urpí & Weber, pois não existem churrascarias na maioria de América tropical. Embora o ideotipo proposto defina muito bem o ideal para o mercado de exportação, todos os caracteres provavelmente possuem baixas a médias herdabilidades (Clement 1995), com a possível exceção da folha ereta (Mora Urpí & Weber 1997). Qualquer programa de melhoramento que utilize este conjunto de caracteres como um índice de seleção obterá ganhos genéticos inexpressivos, pois quanto maior o número de caracteres menor o ganho (Simmonds 1979).

Clement (1995) propôs um ideotipo muito mais simples: pecíolo/raquis sem espinhos, alta taxa de crescimento relativo (TCR), produção continua de perfilhos, baixa presença da enzima que combina com o oxalato de cálcio, e palmito de bom tamanho (que possui uma relação geral de ~1:2 p:p com o estipe comestível em plantas com 1,5 a 2,0 de altura). Com a possível exceção da enzima, todos estes caracteres possuem baixas herdabilidades (Clement 1995). Este ideotipo utiliza a TCR porque é mais flexível que a TAL, pois um fenótipo pode ter uma TCR alta como resultado de uma TAL alta ou por ter uma alta razão de área foliar (RAF) (Causton & Venus 1981). Em termos práticos, todas as tentativas de melhorar geneticamente a TAL fracasaram, enquanto modificações da RAF já foram conseguidas em diversos cultivos (Gupta 1992), elevando assim a TCR.

Tabela 1. Um ideotipo de pupunha para a produção de palmito para os mercados de exportação (processado em vidro ou lata) e in natura (modificado de Mora Urpí & Weber 1997).

* Estipes

* Folhas:

* Perfilhos:

* Palmito:

* Resistente ao ácaro da folha e à broca do estipe

* Tolerante a competição intraespecífica

* Ampla adaptação agronômica

A produção sustentável de um plantio de pupunha para palmito depende da TCR, da produção contínua de perfilhos, do tamanho dos palmitos, da densidade do plantio, da adubação e dos outros tratos culturais. A ausência de espinhos no pecíolo/raquis facilita o manejo do plantio e o processamento dos palmitos, mas facilita também o ataque de pragas, tanto insetos como mamíferos. Os parâmetros agronômicos são controlados pelo agricultor e discutidos nesta mesa redonda por Kaoru Yuyama.

O ideotipo de Clement (1995) é dirigido à produção sustentável de palmito para qualquer dos mercados de interesse no Brasil. Por ter um número de caracteres reduzido, poderá permitir um ganho genético mais rápido. No entanto, a médio e longo prazo outros caracteres do ideotipo de Mora Urpí & Weber (1997) terão de ser incluídos, conforme os programas de melhoramento alcançam suas metas preliminares e se especializam em diferentes mercados.

2. A genética e a importância de espinhos

O plantio de pupunha para palmito no Brasil começou a expandir após a introdução de germoplasma inerme de Yurimáguas, Loreto, Perú (raça "mesocarpa" Pampa Hermosa), no início dos 1980s, pelo M.Sc. Wanders Chávez-Flores, então do INPA. No entanto, na Costa Rica e outros países de América tropical é comum ouvir que a pupunha armada é superior à pupunha inerme; recentemente esta opinião está ganhando adeptos na Amazônia também. Villachica (1996) afirma que as plantas armadas produzem 7% mais palmito do que as plantas inermes. Clement (1996) examinou esta questão em detalhe, pois Villachica (1996) não apresentou dados e Bovi et al. (1992) encontraram que a pupunha de Costa Rica (raça desconhecida) apresentou uma correlação negativa (r = -0,22) entre número de espinhos e peso do palmito, sugerindo a superioridade da pupunha inerme.

A presença de espinhos é primitiva em Bactris (Uhl and Dransfield 1987) e sua presença parece ser dominante à sua ausência (Mora Urpí 1984), mas isto não tem sido confirmado experimentalmente. A pupunha é potencialmente armada com espinhos no estipe, no pecíolo/raquis, no nervo central dos folíolos (raramente nos nervos laterais), nas bordas dos folíolos e na espata. A primeira hipótese sobre a estrutura genética da armação do estipe foi de que a presença ou ausência é um caracter Mendeliano simples, com poucos genes que modificam sua expressão em têrmos de densidade (Mora Urpí, com. pess., em Kerr & Clement 1980). Morera Monge (1981) encontrou três classes de comprimento dos espinhos do estipe, bem como uma variação contínua na densidade de cada classe. Clement (1986) encontrou uma variação no formato dos espinhos, com formatos de espada e agulha e intermediários. Existe um classe de tamanho de espinhos no pecíolo, a mesma variação de formatos como encontrada no estipe, e diferentes arranjos ao longo do pecíolo: em três fileiras ou uniformamente (Clement 1986).

Chávez Flores (1987) estudou a estrutura genética dos espinhos da folha numa amostra da população de Yurimáguas em Manaus. Além da variação observada antes, ele encontrou que a densidade de espinhos no pecíolo diminuiu com a idade em algumas plantas, ou seja, cada folha mais nova teve menos espinhos até em plantas maduras os peciolos foram inermes. A densidade de espinhos no pecíolo apresentou uma herdabilidade sensu stricto de 0,35, enquanto espinhos na borda dos folíolos e no nervo do folíolo apresentaram 0,25 e 0,04, respectivamente. Clement (1995) estudou a estrutura genética de espinhos no pecíolo numa amostra da população de Benjamin Constant, AM, Brasil (raça "macrocarpa" Putumayo), no Havaí. A densidade apresentou herdabilidades sensu stricto de 0 a 0,40, dependendo das progênies e das localidades incluídas na análise. Observou-se que ambientes mais secos e variáveis aumentaram a densidade de espinhos. A densidade de espinhos diminuiu com a idade, diferentes plantas diminuíram mais ou menos rapidamente e esta variação em expressão apresentou herdabilidades de 0 a 0,22. As plantas em ambientes mais secos e variáveis tornaram-se inermes mais lentamente. A existência deste complexo de genes regulando a expressão durante a maduração fisiológica da planta complica seriamente a caracterização de espinhos em pupunha.

Estas observações sugerem que espinhos no estipe e na folha são caracteres quantitativos com muita influência do ambiente na sua expressão fenótipica. No entanto, estas observações não questionam se a ausência é recessiva, o que por sua vez sugere que as plantas inermes são menos heterozigotas do que as plantas armadas e podem apresentar depressão endogâmica como conseqüência. Isto é a base genética da suposição de que as plantas inermes são menos produtivas do que as plantas armadas.

Existem diversas comparações possíveis que avaliam a importância de espinhos: comparações entre populações mais e menos armadas, entre indivíduos armados e inermes numa população e entre indivíduos armados e inermes numa progênie. Todas são importantes para produtores e melhoristas, mas é importante distinguir entres estas comparações pois não são equivalentes.

Comparações entre populações são principalmente sobre a adaptação de um conjunto de genótipos ao agroecossistema em que se encontram; armação é apenas uma pequena parte do genótipo, de forma que influi pouco na adaptação da população ao local. No entanto, esta comparação é importante, pois a maioria das sementes disponíveis no mercado hoje são de populações. Clement (1996) mostrou que a população de Yurimáguas (93% inerme) era 10% superior em peso de palmito em uma localidade e a população de Benjamin Constant (79% inerme) era 5% superior em outra localidade no Havaí, mostrando a importância de interações genótipo x ambiente (GxE) nesta comparação.

A comparação entre indivíduos armados e inermes numa população também é principalmente sobre a adaptação de um conjunto de genótipos (com alguns genes para armação) a uma localidade. Esta comparação é importante porque pode identificar plantas promissoras para programas de melhoramento. Bovi et al. (1992) encontraram uma correlação de r = -0.22 entre número de espinhos e peso do palmito. O coeficiente de determinação resultante é apenas r2 = 0.05, ou seja, 5% da variação no peso do palmito pode ser explicada pela densidade de espinhos nas plantas. Clement (1996) encontrou um r2 = 0.005* em favor de plantas inermes em uma localidade e r2 = 0.002ns em favor de plantas armadas em outra localidade, mais uma vez mostrando a importância de interações GxE e a pouca importância da armação como componente da produtividade.

A comparação de indivíduos armados e inermes numa progênie permite avaliar a importância de espinhos, pois a importânica está sendo avaliada num genótipo comum e o efeito do ambiente pode ser identificado. Clement (1996) apresentou dados sobre a importância de espinhos em 6 progênies de Benjamin Constant em duas localidades em Havaí para quatro parâmetros de produção sustentável. O único parâmetro que mostrou a importância de espinhos de forma clara foi o número de perfilhos (Tabela 2), enquanto a TCR, o peso do palmito exportável (Tabela 3) e o peso comestível total mostraram muito variação em importância dos espinhos entre as localidades e as progênies.

Tabela 2. Porcentagem de diferênça1 entre as médias (±D.P.) das plantas inermes (0) e armadas (+) para o número de perfilhos no momento do primeiro corte em 6 progênies de pupunha de Benjamin Constant (raça Putumayo) plantadas em Ninole e Poamoho Exp. Station, Havaí, entre 1992 e 1995, com as médias por localidade.

Área Progênies
1 2 3 5 8 9 Média
Ninole
0 10,0±2,5 9,0±2,8 7,0±2,2 9,9±3,1 6,8±2,8 7,7±2,4 8,4±1,3
+ 9,5±3,1 7,7±2,3 6,9±2,2 8,6±3,1 6,1±2,2 6,4±2,6 7,5±1,2
% dif. 5,1 16,5 0,7 15,4 12,9 19,5 11,4
Poamoho
0 8,6±2,1 8,6±2,7 8,5±2,2 10,1±2,6 7,9±1,7 8,7±3,5 8,7±0,7
+ 9,3±3,1 9,0±1,4 7,3±1,7 8,7±3,8 7,1±1,7 7,4±2,1 8,1±0,9
% dif. -7,4 -4,9 17,2 16,8 9,9 17,4 7,3

1 % diferença = [(inerme - armada) ÷ armada] * 100; então, as diferenças que favorecem as plantas inermes apresentam um sinal positivo e as que favorecem as armadas apresentam um sinal negativo.

Tabela 3. Porcentagem de diferença1 entre as médias (±D.P.) das plantas inermes (0) e armadas (+) para o peso do palmito exportável em 6 progênies de pupunha de Benjamin Constant (raça Putumayo) plantadas em Ninole e Poamoho Exp. Station, Havaí, entre 1992 e 1995, com as médias por localidade.

Área Progênies
1 2 3 5 8 9 Média
Ninole
0 179±52 168±54 189±52 201±63 177±62 179±44 182±11
+ 148±63 156±49 176±50 160±55 178±66 182±49 167±13
% dif. 21,2 7,9 7,6 26,2 -1,0 -1,7 9,4
Poamoho
0 197±66 160±49 215±67 213±64 203±61 169±83 193±21
+ 205±81 213±69 205±32 222±68 231±42 192±52 211±13
% dif. -3,8 -25,0 4,9 -4,3 -12,1 -11,8 -8,7

1 % diferênça = [(inerme - armada) ÷ armada] * 100; então, as diferenças que favorecem as plantas inerme apresentam um sinal positivo e as que favorecem as plantas armadas apresentam um sinal negativo.

Se uma progênie qualquer apresenta tanta variação na superioridade das plantas armadas e inermes em resposta ao ambiente, é de se supor que exista variação fenotípica que poderá ser selecionada. Clement (1996) mostrou esta variação claramente em termos dos parâmetros de produção sustentável. A Figura 1 mostra porque a correlação entre a densidade de espinhos e o peso do palmito é inexpressiva; os outros parâmetros apresentaram variação similar.

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Figura 1. Variação no peso do palmito em progênie 9 (INPA 5.5.3) da população de Benjamin Constant (raça Putumayo) em Ninole, Ilha de Havaí, como função da densidade dos espinhos no pecíolo (0-9). Os pontos foram "jittered" para eliminar superposição.

Clement (1996) concluiu que não existe evidência clara para a superioridade dos genes para espinhos; a superioridade depende do germoplasma, da localidade e da magnitude da interação GxE. No entanto, existem razões para preferir um ou outro tipo de planta. As plantas armadas são mais resistentes (físicamente) ao ataque de pragas (insetos e mamíferos) e existem algumas anedotas de que estas são mais frutíferas (menos suscetíveis a queda precoce de frutos). As plantas inermes são mais fáceis de manejar, tanto no campo como durante o processamento, não podem se tornar "cabeludas" quando seus palmitos são preparados in natura (o efeito cabeludo aparece quando se esfrega o palmito no sentido contrário ao acostamento dos espinhos tenros e estes se levantam), e, onde a segurânça dos empregados é levada a sério, como no Havaí, o preço de seguro de saúde é muito inferior (com plantas armadas no campo, o preço do seguro de saúde é proibitivo no Havaí, tornando todo o emprendimento inviável - J. Mood, com. pess., 1995).

3. As populações de pupunha inerme

Os povos nativos da América tropical eram excelentes observadores e melhoristas de plantas. Quando eles encontravam uma planta inerme, começavam a selecionar para este caracter em diversas lugares. Como resultado, na Amazônia existem plantas inermes em todas as populações da parte ocidental, especialmente nas raças Solimões, Pampa Hermosa, Putumayo e Vaupés. Na América Central, existe somente uma raça de pupunha inerme, a Guatuso, no norte de Costa Rica, perto da cidade de San Carlos. No noroeste do América do Sul e no sul de América Central as plantas inermes são muito mais raras, sugerindo que as mutações que deram origem as plantas inermes na Amazônia ocidental e na Costa Rica são distintas.

Nas 1980s três populações de pupunha com frequências interessantes de plantas inermes foram identificadas (Clement et al. 1988): Yurimáguas (60-80% inerme), Benjamin Constant (15-25% inerme) e San Carlos (15-30% inerme) [os intervalos representam variações entre as sub-populações]. Além deste caracter, estas populações apresentam outros caracteres de interesse para programas de melhoramento, tais como o diâmetro do estipe, comprimento dos entrenós, número de folhas, comprimento da raquis foliar e área foliar (Tabela 4).

Tabela 4. Características de interesse para a produção de palmito observadas in situ em pupunheiras de Benjamin Constant, AM, Brasil (raça Putumayo - BC), San Carlos, Alajuela, Costa Rica (raça Guatuso - SC), e Yurimáguas, Loreto, Perú (raça Pampa Hermosa - Yu) (Clement et al. 1988).

População Diâmetro
estipe
(cm)
Comprimento
9 entrenós
(cm)
Número folhas Comprimento
raquis foliar
(cm)
Área foliar
(m2)
BC 19,0 182,7 17,2 288 3,9
SC 17,8 119,6 16,4 298 3,9
Yu 18,0 173,3 14,6 318 3,3

O diâmetro do estipe está positivamente correlacionado com o peso do palmito (Bovi et al. 1992, Clement et al. 1988), enquanto o comprimento de 9 entrenós, o número de folhas e a área foliar estão relacionados com vigor (uma estimativa subjetiva da TCR). O comprimento da raquis foliar está relacionado com o comprimento do pecíolo que influência o comprimento do palmito, embora esta relação varie continuamente durante o crescimento de cada folha (Clement et al. 1988). As três populações apresentam muita variação fenotípica para cada um destes caracteres (Clement & Mora Urpí 1988, Clement 1986), mas no Brasil existe somente amostras razoáveis do germoplasma de Benjamin Constant e Yurimáguas.

O mercado brasileiro é abastecido principalmente com sementes da população de Yurimáguas, tanto quando as sementes são importadas como quando são produzidas no país, pois o principal produtor de Manaus (e do Brasil) possue principalmente germoplasma de Yurimáguas também. Até agora, a importação de sementes do Perú não tem trazido nenhum problema fitossanitário, mas o resultado é preocupante porque a base genética é restrita. Além de restrita, a heterozigosidade deste material é reduzida (0,14 com base em 16 loci de 9 enzimas; Clement et al. 1997) e pode contribuir para os problemas de frutificação observados em Manaus.

4. As coleções de germoplasma

Três instituições brasileiras possuem coleções de germoplasma formais: o IAC (estabelecido em 1974), com 43 acessos de Brasil, Costa Rica e Perú; o INPA (estabelecido em 1979), com 450 acessos de Brasil, Colombia, Costa Rica, Equador, Panamá e Perú; e a CEPLAC (estabelecida em 1993), com 27 acessos de Bolívia, Brasil, Colombia e Costa Rica (Mora Urpí & Weber 1997). Nenhuma destas coleções é representativa da diversidade genética da espécie. Diversas instituições também possuem coleções de trabalho: INPA, IAC, CPATSA, CPAF-AC, CPAA e talvez outras que não estão em contato com o INPA. O CPATU teve uma coleção, estabelecida nos 1960s, mas os dados de passaporte foram perdidos nos anos de estagnação do IPEAN e a coleção foi destruída nos 1970s porque não se justificava sem o passaporte (Clement & Coradin 1995). A estagnação de instituições de pesquisa é um fator importante na história de pupunha.

Durante os 1980s, a coleção principal do INPA foi designada como o Banco Ativo de Germoplasma de Pupunha pelo CENARGEN. Com a criação do CPAA após a fusão do CNPSD e da UEPAE-AM, o CPAA começou a colaborar com o INPA para a manutenção da coleção principal e das coleções de trabalho.

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A coleção principal do INPA possui muito germoplasma das três principais raças brasileiras de pupunha (Figura 2), mas pouca das outras raças amazônicas e muito pouco de América Central. Possui ainda muito germoplasma da população híbrida de Yurimáguas (50 acessos) e outros germoplasmas inermes. A representatividade das raças não-amazônicas é baixa.

>Além da coleção principal, o INPA mantém duas coleções de trabalho, ambas de germoplasma de Yurimáguas. A primeira é a coleção original feita em 1980 por Chávez e contém 360 plantas, 4 de cada um dos 80 acessos coletados, plantadas em espaçamento para frutos. Uma parte deste germoplasma formou a base genética do primeiro produtor brasileiro de sementes de pupunha inerme, o Sr. Imar C. Araújo. A segunda é uma coleção financiada pelo CNPq em 1990, também feita por Chávez, e contém 319 acessos plantados em um ensaio de progênies em espaçamento para palmito; esta coleção está duplicada no IAC.

A coleção principal do INPA está parcialmente caracterizada, mas estava semi-abandonada pelo INPA durante o período 1990-95 por falta absoluta de recursos. Por esta razão, precisa ser totalmente renovada, o que significa a derruba dos estipes principais e a recondução das touceiras com base em um perfilho. Até este momento, esta renovação não foi iniciada, pois será feita em parceria com o CPAA e a Universidade do Amazonas para que a caracterização molecular possa ser feita na hora da derrubada. Dado a ausência de garantias de financiamento de longo prazo, a coleção principal não está sendo ampliada.

As coleções formais do IAC e da CEPLAC estão em melhores condições que a do INPA. A coleção de trabalho de Yurimáguas, do IAC, está sendo avaliada e será possível fazer algumas comparações interessantes com os resultados do INPA no futuro próximo.

5. As dificuldades para usar as coleções

Se existem três coleções de germoplasma e varias coleções de trabalho, parece lógico perguntar porque não foram lançadas populações melhoradas ou variedades de pupunha para o mercado nacional de sementes? A resposta é muito simples: os programas de melhoramento genético das três instituições tem sofrido descontinuidades de recursos financeiros e humanos ao longo dos anos. Qualquer programa de melhoramento genético com uma espécie perene, como a pupunha, requer estabilidade e apoio financeiro.

Dada a falta de políticas agrícolas nacional e regional, e a baixa prioridade de pesquisa e desenvolvimento aos níveis nacional, regional e estadual no Brasil, é pouco provável que o setor público terá condições de executar programas de melhoramento genético nos moldes tradicionais para cultivos de pouca importância como a pupunha. Portanto, se as instituições esperam apoiar a expansão da pupunha, estas precisarão transformar seus programas em parcerias com o setor privado, tanto empresarial como de pequenos e médios produtores. Mais importante ainda, os programas deveriam ser feitos fora das estações experimentais. Desta forma poderiam esperar melhor apoio da sociedade (ou seja, dos produtores) e serão melhor protegidos das discontinuidades institucionais. Esta recomendação requererá um novo atitude dos pesquisadores e, especialmente, de seus chefes, pois os melhores recursos genéticos não estarão mais nos mãos dos institutos e sim da sociedade a qual pertencem.

As prioridades dos programas de melhoramento deveriam ser traçadas em comum acordo com os produtores e comerciantes, pois de outra forma apenas representam uma esperança dos pesquisadores e seus chefes. Na Amazônia, este acordo está começando a tomar forma, embora a falta de infraestrutura mínima por parte de institutos como o INPA dificulte a parceria porque não existem veículos suficientes para os pesquisadores irem ao campo.

Ainda não se justifica a coleção de mais recursos genéticos de pupunha na Amazônia, pois não existem programas de melhoramento que possam usá-los adequadamente. Neste momento existe muita variabilidade das raças Pampa Hermosa, Putumayo e Solimões nas coleções que não está sendo bem utilizada. É verdade que existe pouca variabilidade da raça Guatuso, mas sua coleção somente será justificável quando a variabilidade das outras raças estiverem sendo bem explorada.

Qualquer trabalho com os recursos genéticos e o melhoramento de pupunha precisa ser feito como um componente de um programa completo que vise levar a pupunha aos mercados locais, regionais, nacionais e internacionais. Portanto, será apenas um componente, com prioridade intermédia, em lugar de um programa por sí só. Os experimentos agrícolas do INPA e do CPAA em parceria com os produtores foram relatados por Kaoru Yuyama aqui. Falta ainda levar as pesquisas tecnológicas fora das instituições.

Literatura citada

Bovi, M. L. A., L. A. Saes & G. Godoy Junior. 1992. Correlações fenotípicas entre caracteres não destrutíveis e palmito em pupunheiras. Turrialba 42: 382-390.

Causton, D. R. & J. C. Venus. 1981. The biometry of plant growth. Edward Arnold, London.

Chávez Flores, W. B. 1987. Estudos genéticos-fenotípicos de uma população introduzida de pupunha (Bactris gasipaes H.B.K.) sem espinhos na região de Manaus. MSc Thesis, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia & Fundação Universidade do Amazonas, Manaus, AM, Brasil.

Clement, C. R. 1986. Descriptores mínimos para el pejibaye (Bactris gasipaes H.B.K.) y sus implicaciones filogenéticas. M.Sc. Thesis, Universidad de Costa Rica, San José, Costa Rica.

Clement, C. R. 1995. Growth and genetic analysis of pejibaye (Bactris gasipaes Kunth, Palmae) in Hawaii. Ph.D. Dissertation, University of Hawaii at Manoa, Honolulu, HI, USA.

Clement, C.R. 1996. Is spiny better than spineless for pejibaye heart-of-palm production? In: 42º Annual Meeting, InterAmerican Society for Tropical Horticulture, Curitiba, PR, 20-25 October. Resumos, p. 493.

Clement, C. R., W. B. Chávez F. & J. B. Moreira Gomes. 1988. Considerações sobre a pupunha (Bactris gasipaes H.B.K.) como produtora de palmito. In: Anais do Primeiro Encontro Nacional de Pesquisadores em Palmito, pp. 225-247. Centro Nacional de Pesquisas Florestais, Curitiba, Paraná, Brasil.

Clement, C. R. & J. Mora Urpí. 1988. Phenotypic variation of peach palm observed in the Amazon basin. In: C. R. Clement & L. Coradin (eds.), Final Report (revised): Peach palm (Bactris gasipaes H.B.K.) germplasm bank, pp. 20-54. Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA & Centro Nacional de Recursos Genéticos - CENARGEN, Manaus, AM, Brasil.

Clement, C.R. & L. Coradin. 1995. Case Study - Pejibaye (Bactris gasipaes Kunth, Palmae) in Brazil. In: IPGRI Workshop on "Field Genebank Management: Problems and Potential Solutions." 12-18 November, Mayaguez, Puerto Rico.

Clement, C.R., R.M. Manshardt, C.G. Cavaletto, J. DeFrank, J. Mood Jr., N.Y. Nagai, K. Fleming & F. Zee. 1996. Pejibaye heart-of-palm in Hawaii: From introduction to market {Palmito de pupunha no Havai: de introdução ao mercado}. In: J. Janick (ed). Progress in New Crops, pp. 500-507. American Society for Horticultural Science, Alexandria, VA.

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