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EXPANSÃO DO CULTIVO DA PUPUNHEIRA PARA PALMITO NO BRASIL

Marilene Leão Alves Bovi (1)

Bovi, M.L.A. 1997. Expansão do cultivo da pupunheira para palmito no Brasil. Horticultura Brasileira, 15 (Suplemento):183-185.

Introdução

O cultivo da pupunheira (Bactris gasipaes Kunth) para a produção de palmito vem despertando, nos últimos anos, o interesse de agricultores de todo o país. Esse interesse é devido, principalmente, à busca de novas opções de cultivo em substituição aos tradicionais, em virtude dos baixos preços alcançados por esses últimos no mercado.

É preciso ser dito que palmito é extraído de um grande número de gêneros e espécies de palmeiras. Os fatores que fazem com que uma espécie seja preferida em relação a outra, são principalmente: abundância, palatabilidade, cor, formato, ausência de princípios tóxicos, rendimento e facilidade de extração. Considerando esses atributos, palmeiras do gênero Euterpe vem sendo as preferidas. No entanto, devido à alta taxa de exploração de palmeiras deste gênero e o relativamente baixo poder de regeneração presente em espécies de Euterpe, há atualmente falta de produto de boa qualidade. Palmeiras mais precoces e que produzam bom palmito têm sido buscadas. Dentre estas tem merecido destaque a pupunheira (Bactris gasipaes).

Nativa da América Latina, há grande variedade de raças e ecótipos de pupunheira (Mora-Urpí et al., 1993). No entanto, o tipo inerme é o que tem chamado mais a atenção de pesquisadores e interessados no seu cultivo para palmito. Isso porque, quando se busca substituir uma exploração por um cultivo, deve-se procurar no substituto as mesmas qualidades do produto antigo e de preferência, algumas qualidades ausentes naquele. A pupunha, especialmente a sem espinhos, possui quase todas as características desejáveis das palmeiras do gênero Euterpe, acrescidas ainda de algumas vantagens adicionais, quais sejam: crescimento acelerado (precocidade), perfilhamento, rusticidade e alta sobrevivência em nível de campo. Com relação ao palmito propriamente dito, difere em relação ao sabor (mais doce) e à coloração (mais amarelada) (Ferreira et al., 1982; Bovi et al., 1988).

Interesse no Cultivo

O interesse no cultivo da palmeira pupunha para palmito no Brasil surgiu a partir da divulgação do trabalho de Camacho e Sória, na Costa Rica, feito em congresso em 1970 (Camacho e Soria, 1970). Dessa data em diante, algumas instituições brasileiras de pesquisa, tais como o INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), o IAC (Instituto Agronômico, Campinas) e a CEPLAC (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira), começaram a realizar pesquisas nessa área. Sementes foram importadas daquele país e coleta e preservação de material genético foram efetuadas, com o patrocínio de entidades internacionais (Clement, 1983; Clement e Coradin, 1985).

Os primeiros resultados de pesquisa com a pupunheira para a produção de palmito no Brasil começaram a ser divulgados a partir de 1978 (Germek, 1978; Germek et al, 1981; Moreira Gomes, 1983; Bovi et al., 1988; Clement et al., 1988).

Início do Cultivo

Embora houvesse sementes disponíveis em pequena escala a partir de 1976, o cultivo da palmeira pupunha não teve grande avanço na década de 70. Apenas alguns plantios pioneiros, pequenos e destinados principalmente à produção de frutos, foram implantados no Acre, Rondônia, Pará e Bahia. O interesse pelo seu cultivo para a produção de palmito era muito pequeno, devido principalmente a ocorrência de espinhos. Acostumados com palmeiras inermes e em abundância na natureza, os palmiteiros recusavam-se a pensar no cultivo de palmeiras com espinhos, nas quais a região do corte para palmito não se mostrava tão claramente. Germoplasma com alta taxa de plantas sem espinhos foi identificado no Brasil, Peru e Costa Rica e coletado no início da década de 80 (Clement et al., 1982; Mora Urpí, 1984).

Os dados documentados são escassos em relação aos primeiros cultivos comerciais da pupunheira para palmito no Brasil. Considera-se que o primeiro plantio visando especificamente a produção de palmito foi feito no Acre, pela BONAL, em meados da década de 80. Antes disso já havia relatos de uso da pupunheira para a produção de palmito, mais especificamente extração de palmeiras nativas, com espinhos, originárias do Pará. Foi dessa forma que o Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) conseguiu material para a primeira caracterização do palmito da pupunheira em relação às espécies até então mais utilizadas (Ferreira et al., 1982).

Em decorrência dos bons resultados obtidos pela pesquisa com o material inerme na década de 80 e da escassez da matéria prima usual (Euterpe spp.) devido a extração indiscriminada e predatória, alguns empresários iniciaram estudos visando o cultivo em larga escala da pupunheira. Os interessados esbarraram, logo de início, na ausência de sementes em quantidade suficiente para iniciar os seus plantios. Embora o INPA, o IAC e a CEPLAC já dispusessem de material genético inerme com certo nível de seleção, não o possuíam em larga escala. Vale aqui mencionar que as instituições de pesquisa vem sendo muito cobradas a esse respeito. Do ponto de vista dos agricultores e empresários, caberia a essas instituições a produção em escala comercial de material selecionado. No entanto, sabemos da falta de recursos que essas instituições enfrentam, muitas vezes insuficientes até mesmo para a condução de um número limitado de experimentos. Dessa forma, pode-se dizer que, embora a partir de 1980 tenha aumentado o interesse no cultivo da pupunha para palmito, esse interesse foi cerceado pela falta de sementes de material inerme em quantidade.

Expansão do Cultivo

O cultivo da pupunheira para palmito no Brasil teve expansão considerável e caráter mais empresarial a partir de 1988. Dessa data em diante, alertados pela notícia da existência de populações naturais de pupunheiras inermes e do bom desenvolvimento dessas populações nas diversas regiões onde foram testadas (Clement et al., 1988; Bovi et al., 1988), empresários começaram a enviar pessoas para adquirir sementes diretamente na região de origem do material sem espinho (Yurimaguas, Peru). Sementes em grande quantidade foram transportadas para diversas regiões no Brasil, sem nenhum controle e com pouco tratamento fitossanitário. Vendedores de sementes começaram a anunciar nos principais jornais dos Estados e estas foram postas à disposição de grandes e pequenos agricultores.

Devido à grande demanda, o preço das sementes atingiu seu máximo em 1994/95, variando entre 30 a 35 dólares o quilo para pedidos de grande quantidade e de 40 a 120 dólares o quilo para material vendido a granel (1 a 5 quilos). Os primeiros viveiros particulares, destinados exclusivamente à venda de mudas, foram efetuados a partir de 1991, em vários Estados e sob várias tecnologias. O preço das mudas alcançou seu máximo em 1994/5, com valores em torno de R$ 2,50 a 3,20 a unidade. Plântulas recém-germinadas (1 a 2 folhas - 8 a 10 cm de altura) foram vendidas como mudas, atingindo preço de R$ 0,60 a R$ 1,20 a unidade.

Durante os anos de 1997 e 1998, devido à grande oferta, o preço da semente peruana esteve entre R$ 8 a 15,00 o quilo. Mudas bem formadas foram comercializadas entre R$ 0,40 a 1,20 a unidade. O efeito "El Niño", que causou grande seca na Amazônia peruana, fez com que o preço da semente na safra de 1998 (janeiro a abril) voltasse a ser 25 – 30 dólares o quilo. Este preço deve ser mantido para a safra de 1999, que, dado aos reflexos dos efeitos climáticos, está atrasada. As primeiras sementes desta safra estão chegando ao Brasil a partir da segunda semana de fevereiro.

Estimativa da área atual de plantio de pupunheira no Brasil

Devido ao fato de mais de 70% da possível área plantada com pupunheiras possuir menos de dois anos de idade, ainda não existe informação segura acerca dos cultivos realmente consolidados. Na falta de estatística de produção obtida nas fábricas ou nos orgãos oficiais (IBAMA, CACEX, orgãos de extensão, etc) é possível fazermos uma projeção aproximada baseada na importação de sementes. Sabe-se que pelo menos 90% dos plantios são feitos com sementes de origem peruana.

Embora de registro impreciso, dado o caráter não oficial dessa importação de sementes, estima-se que entre 1990 e 1997 entraram no país pelo menos 120 toneladas de sementes originárias do Peru (Figura 1). Estima-se ainda, que cerca de mais 20 toneladas tenham sido produzidas no período no Brasil (Amazonas, Pará, Rondônia, Acre e Bahia) e comercializadas em vários Estados brasileiros. O processo de importação e distribuição de sementes foi tão intenso nesse período que ultrapassou fronteiras. Material vindo do Peru chegou até o Brasil e daqui foi para o Paraguai, Uruguai e Argentina. Nos últimos três anos, uma rota alternativa (Peru - Costa Rica - Brasil) também tem sido utilizada.

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Figura 1. Estimativa de sementes de pupunheira provenientes do Peru e introduzidas no Brasil durante os anos de 1990 a 1998.

Devido ao comércio intenso, com a presença de inúmeros intermediários no processo, é difícil traçar o destino final dessa semente. Seguindo apenas os passos do primeiro e segundo repasse, supõe-se que o Estado do Espírito Santo tenha recebido 39,3% desse total, sendo seguido pelos Estados de São Paulo, Rondônia, Pará, Bahia e Rio Grande do Norte, Mato Grosso, Goiás, Rio de Janeiro, Acre, Paraná, Santa Catarina e Minas Gerais (Figura 2). Deve ser lembrado que, do total de sementes introduzidas no Espírito Santo, apenas 53,8% ficou no Estado. O restante foi enviado em forma de mudas, para vários outros Estados, especialmente Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Alagoas e Rio de Janeiro. É preciso mencionar ainda que é difícil quantificar sementes introduzidas no Estado do Amazonas. Cremos que aí os plantios foram feitos com material de origem peruana mas já produzido no próprio Estado.

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Figura 2. Distribuição percentual por Estados brasileiros de sementes de pupunheira provenientes do Peru durante os anos de 1990 a 1997.

Partindo da hipótese de que todo o material introduzido tenha sido transformado em das e que estas tenham sido de fato plantadas, pode-se estimar que em 1997 o Brasil possuia cerca de 28.000.000 de pés de pupunha, ou uma área aproximada de 5.600 hectares (5.000 plantas/ha) cultivados com material de origem peruana, visando especificamente a produção de palmito (Figura 3). Segundo essa estimativa, o plantio no Estado de São Paulo ocupava em 1997 cerca de 1.350 hectares, 900 dos quais concentrados no Vale do Ribeira e o restante distribuído pelo planalto paulista.

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Figura 3. Estimativa anual de área implantada no Brasil com sementes de pupunheiras originárias do Peru durante os anos de 1990 a 1998 e previsão para o ano de 1999.

Seguindo a mesma linha de raciocínio expressa no parágrafo anterior, conclui-se que rante o ano de 1998 o total de sementes introduzidas daria para implantar cerca de 4.000 hectares. No entanto, ocorreram novamente problemas na germinação das sementes, provavelmente devido aos efeitos climáticos e a colheita de sementes antes de sua completa maturação.

A demanda por sementes em 1999 ainda é grande, com uma previsão de pelo menos 3.000 hectares (Figuras 3 e 4) a serem implantados durante o corrente ano (previsão que pode ser frustada dado aos recentes problemas econômicos).

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Figura 4. Área implantada (acumulada) com pupunheiras visando a produção de palmito nos anos de 1990 a 1998 e previsão para o ano de 1999.

No entanto, em nossa opinião, as estimativas de área cultivada com pupunheiras relatadas acima é maior que o total realmente implantado. Relataremos os fatores abaixo que contribuíram para isso.

Principais problemas na formação de mudas

Grande parte das perdas ocorrem ainda no viveiro. É nessa fase que muitos projetos de implantação do cultivo da pupunheira para palmito terminam. Já observamos perdas de mais de 80% das mudas causadas por uma somatória de diversos fatores. As decisões tomadas nesta etapa são muito importantes e diretamente responsáveis pelo sucesso futuro do empreendimento. Mudas bem formadas apresentam baixa mortalidade a campo, maior precocidade, alcançando idade de corte significativamente mais cedo do que as de formação mediana.

Vários são os fatores que levam ao insucesso nesta fase. Merecem destaque: sementes e/ou mudas de má qualidade e sem tratamento fitossanitário adequado; falta de experiência em agricultura, que leva a escolha inadequada do local do viveiro, falta de infra-estrutura básica e ausência de cronograma; economia de mão-de-obra em viveiro; e informações agronômicas incompletas, incorretas ou inadequadas para a situação local.

Principais problemas no plantio e condução

Como discutido acima, a maior parte dos problemas aparecem já na formação ou obtenção de mudas. Alguns outros, muitos decorrentes daqueles apontados acima, ocorrem na fase de campo. A falta de experiência em agricultura, associada ao excesso de otimismo e às promessas de vendedores de sementes e viveiristas leva, com frequência, à escolha inadequada da área para plantio. Áreas com condições climáticas completamente inadequadas têm sido usadas. A falta de experiência em agricultura faz com que, ainda nesta fase, não seja estabelecido um cronograma de tarefas. Outro problema que surge é a economia tardia. Gastou-se muito com a semente, com a formação ou aquisição de mudas. Começa-se então a economizar, visando diminuir os custos de implantação. Elimina-se preparo do solo e adubação de fundação, diminui-se irrigação e adubação de manutenção. Depois disso tudo, espera-se que a planta tenha o desenvolvimento e a produtividade descrita em boletins informativos dos principais institutos de pesquisa que trabalham com a cultura.

Recomendações aos interessados

Não restam dúvidas de que, entre as palmeiras utilizadas para palmito de boa qualidade, a pupunheira é precoce e relativamente rústica. No entanto, é uma cultura exigente quanto às características físicas do solo, especialmente compactação e drenagem, necessita de adubação pesada para máxima produtividade e correção de solo a cada quatro anos. A exigência em água do cultivo também é elevada, sendo necessária irrigação quando cultivada em áreas com déficit hídrico. A pupunheira é sensível a algumas doenças importantes do ponto de vista de disseminação e controle, tais como as causadas por Fusarium e Erwinia (Figuras 5 e 6).

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Figura 5.A. Aspectos de pupunheiras afetadas por Fusarium no campo. B. Aspectos da planta cortada mostrando a extensão da lesão provocada pelo fungo.

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Figura 6.A. Aspectos de pupunheiras com sintomas de ataque de bactéria do gênero Erwinia no campo. B. Aspectos de pupunheira cortada afetada por Erwinia.

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Recomenda-se aos interessados no cultivo dessa palmeira visitar as instituições de pesquisa que trabalham com a cultura, procurando conhecer a realidade do cultivo (vantagens, desvantagens, solo e clima recomendado, principais problemas, etc) e se assegurar da idoneidade de vendedores de sementes e viveiristas. Se possível, fazer visitas aos plantios existentes em regiões edafo-climáticas semelhantes às do local onde se pretende iniciar o cultivo. Em seguida, fazer uma boa escolha da área onde será feito o plantio, iniciando com pequenos lotes de sementes e formando suas próprias mudas. Posteriormente, expandir o cultivo de acordo com a performance da planta na região e os objetivos aos quais se propuseram inicialmente.

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1 Instituto Agronômico de Campinas-IAC, Manaus, AM, Brasil.